Egyptoblog

Blog de l'Association Egyptologique du Gard
Aoû
06

Djet, o rei com o signo da serpente

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Djet (também chamado de Uadji) foi o terceiro rei da 1ª Dinastia​ (Período Arcaico, também chamado de Dinastia Tinita).  Seu reinado marca o ponto no qual as iniciativas dos governos de Aha e Djer — de organizar um Egito unificado poucos anos antes — começaram a dar frutos (RICE, 1999). O seu nome é representado com o signo da serpente: ele é escrito com o hieróglifo de uma cobra acima da fachada do palácio que forma as bases do serekh, estrutura em que os nomes dos reis eram representados nesse período (RICE, 1999).

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O nome de Djet está do lado esquerdo, dentro do serekh. Foto: Creative Commons.

Governo e sociedade na época:

Igualmente a alguns outros reis do período tinita, Djet possui artefatos votivos a ele. Um exemplo é uma grande estela que traz o seu nome dentro de um serekh cobrindo quase toda a superfície (Imagem 1). Ela foi encontrada nas proximidades de sua tumba e atualmente está exposta no Museu do Louvre (RICE, 1999; HENDRICKX; FORSTER, 2010).

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Estela com o nome de Djet. Foto: Creative Commons.

Outro é um pente de marfim com 8 centímetros de comprimento em que o serekh com o seu nome é protegido por um falcão e ladeado por três símbolos hieroglíficos: dois cetros uas, simbolo do poder real e uma ankh, simbolo da vida. Todos estes elementos estão sob uma embarcação que possui em sua base um par de asas, cujo único tripulante é também um falcão. Esta é uma provável alegoria do deus sol exercendo sua viagem diária, enquanto navega pelo céu (EINAUDI, 2009).

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Pente votivo a Djet. Fonte: EINAUDI, 2009.

Não se conhece muito detalhes do seu reinado, contudo se sabe que um vinhedo foi dedicado ao seu uso e pelo menos duas substanciais mastabas de Saqqara e Gizé datam do seu governo (RICE, 1999).

Também não se sabe quantos anos duraram o seu reinado, mas cogita-se que foram poucos (RICE, 1999).

Sepultamento:

Acredita-se que Uaji tenha sido sepultado em uma grande tumba em Abidos, mais especificamente em Umm el-Qa’ab, na Tumba Z. A exemplo dos seus dois antecessores ele foi acompanhado por fileiras de corpos humanos provenientes de sacrifício; só não se sabe se estas pessoas se voluntariaram para a morte, a fim de seguir o seu líder, ou foram obrigadas (RICE, 1999; WILKINSON, 2010).

Fonte:

EINAUDI, Silvia. Coleção Grandes Museus do Mundo: Museu Egípcio Cairo (Tradução de Lúcia Amélia Fernandez Baz). 1º Título. Rio de Janeiro: Folha de São Paulo, 2009.

HENDRICKX, Stan; FORSTER, Frank. Early Dynastic Art and Iconography. In LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

RICE, Michael. Who’s Who in Ancient Egypt. Londres: Routledg. 1999.

WILKINSON, Toby. The Early Dynastic Period. In LLOYD, Alan, B (Ed). A Companion to Ancient Egypt. England: Blackwell Publishing, 2010.

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Juil
20

OBSTETRIQUE - IV

Article complet du vendredi 31 juillet 2017 (le 20 juillet 2017) :

CLINIQUE OBSTÉTRICALE - IV

  

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• Richard-Alain JEAN, Anne-Marie LOYRETTE, « Clinique obstétricale égyptienne - IV . L’inspection des seins », dans Histoire de la médecine en Égypte ancienne, Angers, 31 juillet 2017.

 

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Juil
13

OBSTETRIQUE - III

Article complet du jeudi 13 juillet 2017 :

CLINIQUE OBSTÉTRICALE - III

 

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• Richard-Alain JEAN, « Clinique obstétricale égyptienne - III . Inspection vasculaire de la face et des membres supérieurs », dans Histoire de la médecine en Égypte ancienne, Angers,13 juillet 2017.

 

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Juil
06

Briga feia entre vizinhos: um “Casos de Família” do Egito Antigo

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Uma das coisas mais interessantes de se estudar a antiguidade egípcia é conhecer um pouco mais sobre as pessoas que caminharam nas terras do Nilo. As histórias de alguns, infelizmente, se perderam nas areias do tempo, mas outras conseguiram chegar até nós graças aos indícios arqueológicos, como é o caso da vida de Paneb, morador da aldeia de Deir el-Medina conhecido por ter sido muito briguento e altamente perigoso em algumas situações.

Deir el Medina

Restos de residências da aldeia de Deir el-Medina

Como o registro envolvendo violência entre vizinhos no Egito Antigo é de certa forma incomum comentei em tom de brincadeira sobre o assunto no meu Twitter há um tempo:

Então, o leitor Cadu Nogueira ficou curioso e pediu para que eu escrevesse acerca aqui no A.E.:

Pode deixar Cadu, este texto aqui é para você!

A citada história foi registrada no atualmente chamado de Papiro Salt 124 (Brit. Mus. 10055), datado do início da 20ª Dinastia. Nele conhecemos um pouco sobre a trajetória de vida do encrenqueiro Paneb, um jovem humilde de Deir el-Medina que, a exemplo de muitos dos seus vizinhos com a sua posição social, foi um artesão. Os trabalhadores de Deir el-Medina eram divididos em dois grupos, cada um comandado por um escriba e um capataz. O capataz de um dos grupos chamava-se Ha, o outro Neferhotep — o segundo personagem importante desta nossa história — que gerenciava justamente o grupo de Paneb.

Neferhotep era um homem de meia idade que embora casado com uma mulher chamada Wabjet não possuía filhos. Desta forma, não tinha um herdeiro para ensinar o seu ofício e deixar como herança a sua posição [1]. Ele resolveu então adotar e escolheu justamente o Paneb, embora o rapaz ainda possuísse pais vivos e que cuidavam dele. Não se sabe muitos dos detalhes, mas é fato que Paneb foi entregue para o capataz, que imediatamente o levou para viver em sua casa, com a sua nova família composta pelos irmãos e sobrinhos do Neferhotep.

Deir el MedinaRuínas de Deir el-Medina vistas de longe.

Paneb teve uma mudança radical em sua vida para melhor já que um capataz exercia um papel muito importante em Deir el-medina, podendo usufruir das melhores acomodações, roupas e alimentos. Porém, em vez de se sentir agradecido o garoto tornou-se arrogante e intratável, sendo extremamente agressivo com várias pessoas que faziam parte do seu convívio, além de exagerar no consumo de bebidas alcoólicas. Apesar disso, Neferhotep não o baniu da família.

A segunda sorte de Paneb foi ao casar-se com a filha de Ha, Uabet, o que certamente melhorou muito mais a renda familiar.

— Veja também: Trabalho no Egito antigo: greves, maus-tratos e direitos

Passaram-se cerca de doze anos após o casamento, mas um perigoso incidente abalou os moradores de Deir el-Medina. Não conhecemos os motivos, mas em um ataque de fúria Paneb perseguiu o Neferhotep pelas ruas da aldeia. O idoso conseguiu se afugentar em sua residência, mas teve que escutar gritos de ameaças de morte proferidos por seu filho, que tentava derrubar a porta enquanto alguns aldeões se esforçavam para acalmá-lo. De acordo com o testemunho posterior de um dos irmãos de Neferhotep, o Paneb “Pegou uma pedra e arrebentou a porta” e sem conseguir alcançar o pai voltou-se contra os vizinhos e “bateu em nove homens naquela noite” (DERSIN, 2007; 37). Nada pior ocorreu porque uma vigília foi montada em frente à casa do capataz.

Deir el-MedinaEm algum lugar por aqui Paneb assustou seus vizinhos e parentes.

Neferhotep decidiu denunciar o filho não a um juiz local, mas ao próprio vizir do faraó. Porém, Paneb contra-atacou de maneira ousada, denunciando o próprio vizir a um alto-funcionário. Não se sabe o teor da denúncia, mas o cenário político do Egito na época estava recheado de intrigas palacianas, o que deu a chance dos detratores do vizir de depô-lo do seu cargo antes mesmo que a análise do caso do Paneb chegasse a uma conclusão.

O que se seguiu foi outro momento inesperado: Neferhotep perdoou o filho e não o baniu como seu herdeiro, apesar dos pedidos de seus parentes que o fizesse.

Por fim, o idoso faleceu e Paneb assumiu o seu cargo como capataz. Mas ele não parou de aprontar e mais uma vez arrumou confusão na vizinhança, deitando-se com algumas mulheres casadas. Porém, agora quem o denunciou foi o seu próprio primogênito, Aapethy, que disponibilizou, inclusive, uma lista com os nomes destas mulheres [2]. Entretanto, aparentemente nada ocorreu.

Uma das suas notáveis amantes foi uma moça chamada Hunro, que era casada com um pintor, do qual se divorciou posteriormente e casou-se com outro filho adotivo de Neferhotep, adotado anos depois de Paneb. O casamento não vingou — em parte porque Hunro e Paneb permaneceram como amantes — e três anos depois veio mais um divórcio.

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Reconstituição feita por Golvin. Link: http://jeanclaudegolvin.com/deir-el-medineh-2/

Entra então em cena um dos irmãos do falecido Neferhotep, Amennakht, que dedicou anos a coletar evidências dos crimes de Paneb e com tudo completo entregou os dados para as autoridades. Dentre as acusações estavam furtos, agressões, adultério, estupro e assassinato. Na de furto constava que ele tinha surrupiado um ganso de ouro de dentro da sepultura de uma das rainhas de Ramsés II. Nas palavras do tio “Jurou pelo senhor pertinente, dizendo ‘Não está comigo’. Mas foi encontrado em sua casa” (DERSIN, 2007; 43). Desta vez a justiça foi feita e ele foi demitido do cargo de capataz. Não se sabe o seu derradeiro fim, mas uma inscrição do período encontrada em um óstraco [2] pode estar nos dando a dica: “execução do chefe” (DERSIN, 2007; 44).

 

Fonte integral deste post:

DERSIN, Denise. A história cotidiana às margens do Nilo (Tradução de Francisco Manhães, Marcelo Neves, Carlos Nougué, Michael Teixeira).  1ª Edição. Barcelona: Folio, 2007.

[1] Os trabalhos no Egito eram passados de forma hereditária.

[2] Apesar da denúncia o próprio Aapethy, igualmente ao seu pai, tinha sido acusado de estupro de uma mulher da aldeia.

[3] Pedaço de pedra ou cerâmica quebrada onde eram escritas pequenas mensagens, informações breves ou rabiscos. O papiro era muito caro, então os óstracos era uma opção barata.

 

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Jui
23

OBSTETRIQUE - II

Article complet du vendredi 23 juin 2017 :

CLINIQUE OBSTÉTRICALE - II

 

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• Richard-Alain JEAN, « Clinique obstétricale égyptienne - II . Inspection de la face et des yeux», dans Histoire de la médecine en Égypte ancienne, Angers, 23 juin 2017.

 

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Jui
20

Amuletos egípcios: significados dos símbolos e os seus usos

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Quando pensamos em antiguidade egípcia de forma geral a palavra-chave principal é religião. De fato, os indivíduos que viveram sob a autoridade do rio Nilo — e os oásis mais próximos — eram extremamente religiosos e vinculavam parte do seu sucesso, mesmo que dependessem de muita força humana, a divindades, a forças sobrenaturais.

Contudo, pode-se dizer que existe um grande paralelo na religião egípcia onde por um lado ela era exercida pelo faraó e os sacerdotes, cercada pelo mistério e as relações de poder. Do outro, temos a população comum, impedida de adentrar na maioria dos espaços mais sagrados, tendo como alternativa realizar pequenos rituais ou se utilizar de amuletos para alcançar algum objetivo (ANDREWS, 1994).

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Variedades de amuletos do Ashmolean Museum. ISBN 84-7838-737-4

Egyptian Amulets

Variedades de amuletos.

O amuleto, ou talismã, é um ornamento pessoal que graças ao seu formato, matéria-prima ou cor poderia dotar o seu portador de capacidades mágicas ou conceder proteção. Na antiguidade egípcia eles faziam parte do cotidiano tanto das pessoas comuns, como da nobreza e da realeza. Na tumba do faraó Tutankhamon, por exemplo, foram encontrados dezenas deles (TIRADRITTI, 1998; JAMES, 2005). A importância dada a estes objetos era tamanha que eles poderiam ser utilizados tanto em vida como no pós-morte. Ainda tinham aqueles que possuíam um uso unicamente funerário, como era o caso do Livro dos Mortos, que eram confeccionados unicamente para ser postos dentro da sepultura (ANDREWS, 1994).

Os amuletos egípcios foram o tema do vídeo especial do Arqueologia Egípcia em comemoração dos mais de 3.000 inscritos no canal. Assista para conhecer mais sobre o universo da religião egípcia.

Alguns tipos de amuletos

Vários foram os tipos de amuletos que prometiam algum tipo de proteção. Um exemplo é o já citado Livro dos Mortos, uma coletânea de fórmulas mágicas destinadas a proteção do falecido. Existiam também os decretos oraculares, que a partir do Terceiro Período Intermediário passaram a ser registrados em cilindros que eram utilizados ao redor do pescoço do interessado. Imagens de antepassados também poderiam assumir funções amuléticas. Gestantes e recém-nascidos tinham algumas opções de proteção devido ao grau de risco que sofriam: Um amuleto com a imagem da deusa Tauret poderia resguardar a grávida e determinadas vestimentas conferiam proteção na hora do parto. Imagens do deus Bés tinha como intenção guardar o recém-nascido e como proteção extra os pais tinham como opção amarrar um papiro com uma fórmula mágica prometendo a sobrevivência da criança ou adotar um vaso cerâmico para leite retratando a imagem de uma mulher amamentando (ANDREWS, 1994; TIRADRITTI, 1998; DAVID, 2011).

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Vaso para leite. www.resignation.bg/gallery

Eye of Horus

Ancient Egyptian amulets

Porém, apesar de sabermos a utilidade de uma série destes objetos, a maioria possui o uso ainda desconhecido ou confuso. Imaginem que são dezenas de amuletos com variadas formas — algumas das quais faziam sentido somente para os antigos egípcios, a exemplo do nefer (veja quadro a seguir) —, com imagens de animais que representavam diferentes divindades e mesmo retratando sincretismos. Abaixo vocês poderão conferir uma simples variedade destes objetos e seus respectivos usos:

Imagem Nome/Forma/Divindade Significado
 image Ankh Vida.
 image Wedjat Proteção, um amuleto que conferia saúde.
 image Djed Estabilidade, permanência.
 image Tyet Também chamado de “nó de Ísis”, era colocado no pescoço do morto para a sua proteção.
 image Nefer Não se sabe a sua serventia. Provavelmente tem algo a ver com beleza ou perfeição.
 image Tauret Amuletos com a forma desta deusa tinham a intenção de proteger as gestantes e promover um bom parto.
 image Bés Amuletos com a forma deste deus tinham como objetivo proteger as crianças e afastar os maus sonhos.
 image Tartarugas Afastar o mal através da intimidação.
 image Relacionados com a deusa Hequet, conferiam a fertilidade e renascimento.
 image Ib O coração do falecido. Conferia eternidade.
 image Kheper (escaravelho) Eternidade e renascimento.

Referências bibliográficas:

ANDREWS, Carol. Amulets of Ancient Egypt. Londres: British Museum Press, 1994.

BAINES, John; MALEK, Jaromir. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito (Tradução de Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Michael Teixeira, Carlos Nougué). Barcelona: Folio, 2008.

DAVID, Rosalie. Religião e Magia no Antigo Egito (Tradução de Angela Machado). Rio de Janeiro: Difel, 2011.

JAMES, Henry. Tutancâmon (Tradução de Francisco Manhães). Barcelona: Folio, 2005.

MULLER, Hans Wolfgang; THIEM, Esberhard. O ouro dos faraós (Tradução de Carlos Nougué, Francisco Manhães, Maria Julia Braga, Angela Zarate). Barcelona: Folio, 2006.

TIRADRITTI, Francesco. Tesouros do Egito do Museu do Cairo. São Paulo: Manole, 1998.

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02

Profanação e romantismo: a verdadeira maldição das múmias

Por Márcia Jamille | @MJamille | Instagram

Esta é a minha tradução integral do texto “Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies” (Ensaio da sexta-feira: profanação e romantismo – a verdadeira maldição das múmias) de Craig Barker, que é gerente de educação dos museus da Universidade de Sidney. Achei interessante trazê-lo para vocês porque além de falar do uso da imagem de múmias egípcias no cinema e na literatura, faz uma reflexão sobre isso. Então, para os interessados em história do cinema, literatura e claro no Egito Antigo esse artigo será um grande bônus. Aproveito para lembra-los que já traduzi outro texto com um assunto levemente semelhante em “O Antigo Egito e os primórdios do cinema” e fiz minha própria contribuição sobre o tema em “Múmias, múmias e mais múmias no cinema”.

 

Craig Barker, Gerente de Educação, Sydney University Museums, University of Sydney.

Este mês de junho, o túmulo de antigas ideias de Hollywood vai abrir novamente e apresentar o conto de um antigo túmulo egípcio perturbado por um atrapalhado arqueólogo e/ou um herói de ação-aventura, que inadvertidamente e involuntariamente desencadeia uma maldição.

Esta maldição ressuscitará uma múmia buscando vingança ou uma amante perdida, causando estragos na sociedade contemporânea até que nosso herói possa detê-la. Este ano A Múmia, dirigida por Alex Kurtzman, verá os faraós de Hollywood Tom Cruise e Russell Crowe enfrentarem uma múmia feminina interpretada por Sofia Boutella.

Ouvi isso antes? O filme de Kurtzman é apenas o mais recente de uma linha surpreendente da mumiamania e egiptofilia antes da descoberta do túmulo de Tutankhamon em 1922. Enquanto a cultura popular se deleitava com múmias por mais de dois séculos, na mesma época, as antiguidades egípcias foram saqueadas, desejadas e depois profanadas. No século 19, era até moda sediar as festas para “desenrolar”, onde as múmias eram reveladas e dissecadas como um evento social dentro dos salões vitorianos.

Uma múmia é um cadáver de um humano ou animal cuja pele e órgãos foram preservados. Isso pode ser feito deliberadamente, através de processos de embalsamamento químico, ou acidentalmente, graças ao clima. Várias culturas antigas praticavam a mumificação deliberada, tal como o povo Chinchorro da América do Sul, e os mais famosos, os corpos dessecados do Antigo Egito, que foram meticulosamente preparados para a vida após a morte.

O estudo de múmias tornou-se uma disciplina acadêmica importante e mais continua a ser descoberto. No último mês, vimos a descoberta de 17 múmias em uma necrópole perto da cidade de Minya, no Vale do Nilo, e a descoberta da tumba de nobre do Novo Império em Luxor. Apesar desse nível de atenção acadêmica e meticulosa investigação arqueológica, infelizmente, saques e contrabando de antiguidades do Egito, incluindo múmias, continua hoje.

 

Tudo realmente velho é novo novamente

Com um orçamento anunciado em $125 milhões, filmado principalmente em Oxford e no Museu Britânico, A Múmia é um grande orçamento investido pela Universal Studios. A história sugere que esse filme será um grande sucesso.

Entretanto, a mãe de todos os filmes de múmia permanece sendo o filme original de 1932, A Múmia (The Mummy), estrelado por Boris Karloff; Ele define o modelo para os outros seguir. O sacerdote egípcio Imhotep, simpaticamente interpretado por Karloff, foi mumificado vivo por tentar reviver seu amor proibido, a princesa Ankh-es-en-amon. Descoberto pelos arqueólogos que o ressuscitam lendo do Pergaminho de Thoth, Imhotep acredita que uma mulher moderna, Helen Grosvenor (interpretada por Zita Johann), é a reencarnação da princesa e a leva pela Londres moderna[1]. Não é só um monstro, como também um amante incompreendido.

Mais de uma dúzia de filmes se seguiram, a partir da década de 40 (The Mummy’s Tomb), os anos 50 (The Mummy), os anos 80 (The Awakening) e que culminaram com sucesso de bilheteria de 1999, A Múmia, que gerou duas sequencias e um spinoff de franquia prequel[2].

Cada um desses filmes tem fundamentalmente o mesmo enredo. Na versão de 2017, uma mulher é ressuscitada dos mortos em vez de um homem, mas mesmo isso não é novo. Blood From the Mummy’s Tomb (1971) de Hammer apresentou uma múmia feminina (Valerie Leon)[3], que é revivida e depois caminha por aí com poucas roupas para um inverno de Londres.

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Valerie Leon em Blood From the Mummy’s Tomb (1971).

De maldições e reis

Por que a múmia é uma tropa popular no cinema de terror? A múmia, pode-se argumentar, simboliza alguns dos nossos medos mais básicos em torno da mortalidade. O apelo duradouro da múmia também pode ser rastreado para a escavação arqueológica que todo mundo no planeta já ouviu falar: o túmulo de Tutankhamon. A descoberta desta tumba por Howard Carter no Vale dos Reis em 1922 fez manchetes internacionais. A tutmania resultante influenciou todo o tipo de cultura popular, desde o design e moda Art Deco, até canções pop e publicidade.

Arquivos da filmagem das escavações de Carter no túmulo de Tutankhamon em 1922.

Uma exposição recente no Museu Ashmolean de Oxford explorou o quão famoso Tutankhamon foi durante esse período-chave da mumiamania. A cobertura de mídia das escavações foi insaciável. Carter teve um acordo exclusivo com o jornal Daily Express[4], que levou outros repórteres a enfeitar suas histórias. Isso levou a relatos de uma suposta (mas inexistente) maldição no túmulo: “A morte vem em asas rápidas para aquele que perturba a paz do rei”. Foi um absurdo, é claro, mas uma vez que o financiador do projeto arqueológico, Lord Carnarvon, morreu no Cairo graças a uma picada de mosquito infectado, a história da maldição decolou mais rápido do que qualquer notícia real. Na cultura popular, múmias e maldições se tornaram irremediavelmente ligadas.

A descoberta de Tutankhamon pelo time de Carter inspirou uma série de relatos ficcionais, de graus variados de fidelidade à história, incluindo o filme The Curse of King Tut’s Tomb (1980), um remake de filme de TV com o mesmo nome em 2006 e a série britânica de televisão Tutankhamun de 2016.

Enquanto Tut perpetuou a loucura de Hollywood por múmias, o fascínio público por maldições antecede a morte infeliz de Carnarvon. Uma série de filmes mudos com temas de múmias foram feitos nos primeiros anos de cinema, incluindo o Cleopatra’s Tomb (1899) pelo cineasta pioneiro George Melies e The Mummy, de 1911. Infelizmente, a maioria destes não sobreviveu.

Havia também uma rica tradição do século XIX de múmias na literatura. As múmias apareceram em tudo, desde trabalhos sérios até penny dreadfuls. Um número de escritores famosos contou histórias que cimentaram a história da maldição, incluindo Lost in a Pyramid: or th Mummy’s Curse (1869) de Louisa May Alcott; Jewel of Seven Stars (1903) de Bram Stoker e Lot No. 249 (1892) de Arthur Conan Doyle.

‘Modern Antiques’ foi uma caricatura de 1806 de Thomas Rowlandson, que satiriza o entusiasmo britânico pelo antigo Egito. Wikipedia.

Outras obras foram além das maldições. Some Words With a Mummy (1845) de Edgar Allan Poe foram um comentário satírico sobre Egiptomania. Havia também romances, talvez melhor tipificados por The Mummy’s Foot, história de 1840 de Théophile Gautier, em que um jovem compra um pé mumificado de uma loja de antiguidades parisiense para usar como papelão. Naquela noite, ele sonha com a bela princesa a quem o pé também pertencia, e os dois se apaixonam, apenas para serem separados pelo tempo.

Um número de estudiosos, especialmente Jasmine Day, têm investigado o papel das múmias na ficção do século XIX e um aspecto interessante é o número de escritoras femininas desses contos.

Uma das, se não a mais antiga, história de múmia é The Mummy!: Or a Tale of the Twenty Second Century (1827) de Jane Webb (Loudon), que mostra o avivamento de Quéops no ano 2126. Outras escritoras apresentaram um interessante subtexto e perspectiva.

Os túmulos de múmias egípcias da realeza haviam sido violados e explorados por saqueadores, e uma analogia com o estupro é clara dentre as antigas ficções de maldição de múmias escritas por mulheres. Em contraste, escritores masculinos, como o Gautier, apresentavam muitas visões mais romantizadas ou eróticas dos mortos.

 

A violação do Nilo

Pote de boticário do século XVIII com a inscrição MUMIA do Deutschen Apothekenmuseum Heidelberg, Alemanha. Wikipedia.

O fascínio europeu pelas múmias egípcias começou há séculos: o “pó de múmia” foi vendido em boticários para uma variedade de fins médicos e afrodisíacos (Shakespeare, a menção a múmias na cena do caldeirão das bruxas de Macbeth).

Enquanto isso, “múmia marrom”, um pigmento colorido feito parcialmente de múmias, era usado na arte europeia (foi particularmente favorecido pelos pré-rafaelitas).

Mas, a egiptomania realmente começou com seriedade no século XIX. Os relatos do explorador britânico de origem italiana, Giovanni Belzoni, de suas aventuras de 1815-8 no Egito tornaram-se lendários, assim como as múmias e outras antiguidades que ele trouxe para Londres.

Seus relatos falavam de entrar em túmulos e os sons cruéis feitos sob seus pés enquanto ele estava sob corpos mumificados.

Cientistas que acompanharam as campanhas egípcias de Napoleão descobriram a pedra de Rosetta, que mais tarde no Reino Unido levaria à decifração de hieróglifos. O turismo egípcio decolou em meados do século XIX. Tudo isso viu um interesse crescente no Egito. Múmias, ou pelo menos restos mumificados, tornaram-se itens valorizados em coleções de museus nacionais e gabinetes pessoais de curiosidades.

O desejo de possuir múmias e outros artefatos egípcios, juntamente com a expansão colonial europeia e o fascínio pelo orientalismo, impulsionaram um enorme mercado de restos humanos e outras antiguidades. Famosamente descrito como “o estrupo do Nilo”, este saque foi em uma escala monumental, literalmente no caso de obeliscos e esculturas gigantes. Egípcios empreendedores estabeleceram lojas de antiguidades para suprir o desejo insaciável de visitantes europeus de possuir o passado.

G.B. Belzoni forçando passagem na segunda pirâmide de Gizé, 1820, gravura à mão. UA1992.24. Coleção de Arte da Universidade de Sydney.

Muitas das múmias terminaram em museus destinados a estudos acadêmicos, mesmo aqui na Austrália. De museus universitários para coleções estaduais para instituições privadas, como MONA, um número surpreendentemente grande de múmias têm feito a este país.

Outros acabaram nas mãos de colecionadores europeus e americanos privados, onde as festas do “desenrolar” públicas e privadas tornaram-se populares. As festas do desenrolar do cirurgião Surgeon Thomas Pettigrew em um Teatro Piccadilly na década de 1820 foram as primeiras do que se tornou um evento popular no meio desse século.

Foi parcialmente por conta da escala dessa perda que levou o Egito a desenvolver uma das primeiras leis de antiguidades do mundo. Promulgada por um decreto de 1835, visava impedir a remoção não autorizada de antiguidades do país.

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Múmia de um menino, início do século II dC, de Tebas, Egito. NMR26.1, Nicholson Museum, Universidade de Sydney. Sydney University Museus

Seguiu-se a criação do Conselho Supremo de Antiguidades em 1858 e a abertura do Museu do Cairo cinco anos depois. A inundação das antiguidades egípcias no exterior não parou, mas definitivamente desacelerou e combinada com a ascensão da disciplina acadêmica da arqueologia, viu uma mudança gradual na compreensão da importância do contexto para as antiguidades.

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Paul Dominique Philippoteaux, Examen d’une momie – Une prêtresse d’Ammon, óleo sobre tela, Egito, c.1895 – 1910. Peter Nahum at the Leicester Galleries.

O subsequente aperto da legislação no Egito e em outros lugares, seguido da Convenção da UNESCO de 1970 sobre os Meios de Proibir e Prevenir a Importação, Exportação e Transferência de Propriedade Cultural, criou o ambiente moderno para a investigação ética e arqueológica e a exportação legal de antiguidades.

 

Sem fim para a egiptomania

No entanto, o saque ainda continua a ser um grande problema no Egito hoje, particularmente com o declínio do turismo e as dificuldades econômicas que vieram com a turbulência política após a Primavera Árabe de 2011. O número de antiguidades saqueadas e contrabandeadas do Egito continua a ser extraordinário. Cerca de $ 26 milhões em antiguidades saqueadas foram ilegalmente transportadas para os EUA a partir do Egito apenas nos primeiros cinco meses de 2016.

De acordo com o site Live Science, os guardas das antiguidades foram “abatidos” enquanto protegiam um túmulo antigo e “as múmias foram deixadas de fora no sol para apodrecer depois que seus túmulos foram roubados”.

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Roubo e destruição de múmias no local de Abu Sir Al Malaq no Egito. HBO.

O problema está em andamento e varia de sindicatos internacionais de contrabando internacional até os locais tentando aumentar o dinheiro extra. As imagens de satélite demonstram grandes áreas que estão sendo saqueadas sistematicamente.

A escavação não supervisionada pode ser perigosa. Dois escavadores ilegais foram mortos este mês, quando sua casa entrou em colapso sobre seu túnel, o último de vários incidentes. É uma lembrança trágica de quão perto estamos do passado e como a atração das múmias é tão grande hoje quanto a Belzoni.

Enquanto comemos nossa pipoca e gostamos de assistir a batalha de Tom Cruise com os mortos reanimados, vale a pena lembrar que a verdadeira maldição das múmias não é o que elas podem nos fazer na ficção e no cinema, mas sim pela maneira como as profanamos e tratamos na vida real.

Texto original:

Friday essay: desecration and romanticisation – the real curse of mummies. Disponível em < http://theconversation.com/friday-essay-desecration-and-romanticisation-the-real-curse-of-mummies-77476 >. Acesso em 01 de junho de 2017.

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imageTenha em casa: A Edições Del Prado, uma editora especializada em vendas de fascículos com imagens colecionáveis, possui uma coleção intitulada “Cenas do Egito Antigo”. Uma delas recria um momento durante a mumificação.

Clique aqui para conferir a peça ou aqui para ver as demais cenas.

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Minhas notas acerca do texto:

[1] Creio que ocorreu um equívoco aqui, já que a história toda se passa no Egito.

[2] Possivelmente ele está falando de “O Escorpião Rei”.

[3] Lembrando que este filme não é da Universal Studios.

[4] Ele falou que foi esse, mas foi o Times de Londres.

Auteur d'origine: Márcia Jamille
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Jui
01

INSTRUMENTS - CLYSTERE - 59 - Scies

Article complet du jeudi 1er juin 2017 :

INSTRUMENTS

 

Clystère 59

  

• Richard-Alain JEAN, « Tefaw ancêtres des scies chirurgicales : À propos d’une représentation égyptienne », dans Clystère (www.clystere.com), n° 59, 1er juin 2017, p. 3-45 (ISSN 2257-7459).

 

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Auteur d'origine: richardalainjean
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Mai
15

SEXUALITE - III

Article complet du lundi 15 mai 2017 :

SEXUALITÉ - III - Physiologies

 

p

  

• Richard-Alain JEAN, « La sexualité en Égypte ancienne - III . Les physiologies divine, royale et humaine », dans Histoire de la médecine en Égypte ancienne, Angers, 15 mai 2017.

 

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Auteur d'origine: richardalainjean
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Avr
22

SEXUALITÉ - I

Article complet du samedi 22 avril 2017 :

SEXUALITÉ - I - INTERHISTORIQUE

 

p

 

• Richard-Alain JEAN, « La sexualité en Égypte ancienne - I . Physiologie symbolique comparée interhistorique. L’éléphant, la vache, et le scarabée », dans Histoire de la médecine en Égypte ancienne, Angers, 22 avril 2017.

 

Disponibilité (gratuit)

Cliquez :  Sexualité interhistorique

 

Auteur d'origine: richardalainjean
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